quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Artigo - A mídia brasileira e o imaginário do feio
A MIDIA BRASILEIRA E O IMAGINÁRIO DO FEIO
Gustavo de Castro
Verônica Brandão
Este artigo orientou-se pelas táticas e estratégias presentes no pensamento
complexo e visou reunir simultaneamente vestígios do imaginário nacional, a história
da mídia no Brasil e as teorias sobre o feio. A reunião de vestígios em arquivos
objetivados da mídia e as teorias (do imaginário, da comunicação e da estética)
costuram o que pretendemos como recorte teórico-metodológico. Trabalhamos a partir
de exemplos aleatórios colhidos nos arquivos dos programas televisivos, matérias
jornalísticas da revista O Cruzeiro, visualizações do Youtube e postagens do Facebook,
assim como do arquivo de pesquisa do Laboratório de Narrativas e do Grupo de Estudos
e Pesquisa em Comunicações Estéticas – Com Versações, da FAC/UnB. A partir daí
buscamos reunir elementos para a construção do imaginário do feio nacional e o diálogo
feio-belo na mídia brasileira.
Artigo completo aqui
Artigo - JN alta performance
JN alta performance
Lilian Muneiro
Ariadna Straliotto
Merilyn Escobar de Oliveira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN
Bom Jesus/Ielusc, Joinville, SC.
RESUMO
A edição de primeiro de janeiro de 2011 do Jornal Nacional foi considerada histórica
por dois grandes motivos: a celebração do novo ano e, principalmente, pela posse de
Dilma Rousseff à presidência do Brasil. Nesse sentido, o telejornal explorou, em
consonância ao projeto editorial adotado, o ingresso da primeira mulher ao cargo
político mais expressivo e disputado do País, a despedida do ex-presidente Luis Inácio
Lula da Silva - e, ao mesmo tempo, a própria mecânica do jornalismo em realizar seu
trabalho, em cobrir o fato político. Este artigo tem sua investigação centrada na
narratividade apresentada pelo jornal, diante da tentativa de (re)contar ao telespectador
como foi a posse de Dilma. Para além disso lança um olhar sobre a abordagem da
performance jornalística, anunciada pelo próprio telejornal em torno da presença dos
profissionais da televisão e do envolvimento de equipes para que tal cobertura pudesse
ser realizada e propalada de modo exitoso.
PALAVRAS-CHAVE: jornalismo; televisão; narratividade; Jornal Nacional.
Artigo completo aqui
terça-feira, 5 de junho de 2012
Os sintomas de uma sociedade do olhar
Por José Isaías Venera em 14/02/2012 na edição 681
A décima segunda edição do Big Brother Brasil nos força a pensar no olhar como sintoma do telespectador. Como se o objeto observado (a cena) devolvesse o olhar e mostrasse que ele é apenas uma metonímia (apenas outra forma) que expressa o próprio desejo do telespectador. O desejo (cujo conteúdo é da ordem do inconsciente) que permanece no sujeito como sintoma de um vazio. Numa simples explicação, desejamos justamente aquilo que nos falta, mas de cujo “verdadeiro” objeto que queremos não temos consciência. Nesse movimento impossível para alcançar uma plena satisfação, vamos ao longo da história nos transformando cada vez mais numa sociedade escópica. E o programa da Rede Globo seria apenas mais uma das expressões dessa sociedade, sendo que encontraríamos movimento semelhante quando consumimos telejornais, filmes, videoclipes.
Nesse espaço entre o sujeito e o objeto, ou entre o telespectador e o BBB12, há um olhar preexistente. Esse é talvez o pensamento de Merlau-Ponty em O visível e o invisível, no sentido de que o visível depende do olho daquele que vê, mas há um ser imaginário por trás do olhar. As personagens do BBB12 desempenham papéis semelhantes aos das onze edições já realizadas, mas a repetição ganha repercussão na mídia como se fosse algo novo mobilizando o desejo dos telespectadores (o que pode ser observado nos sucessivos recordes de ligações nos dias de eliminação). Mas isso não explica nada. Ora, o que mobiliza o sujeito a ver o BBB12 não é a mera curiosidade, vontade em entreter-se, nem o endereçamento midiático, mas a presença de um outro, da cena em que se vê vendo-se (há sempre algo no objeto que ao ser percebido mostra algo de mim).
O objeto remexendo o espectador?
Na mesma esteira está o psicanalista francês Jacques Lacan, para quem o objeto percebido devolve o olhar. Podemos entender melhor a partir das investigações do esloveno Slavoj Zizek em Lacrimae Rerum, quando analisa os filmes de Hitchcock e apresenta o terceiro olhar (olhar ausente), expresso pelas cenas em que personagens têm a impressão de que há alguém observando eles mesmos, como nos filmes Janela indiscreta e Um corpo que cai.
Seria esse olhar ausente (na teoria do cinema integraria às câmeras objetiva e subjetiva) que sustentaria, nessa análise, esse olhar devolvido e que funciona como um objeto imaginário com a função de tamponar uma falta do sujeito. Qual falta? Do objeto perdido (para a psicanálise está relacionado com a castração simbólica) que, ao mesmo tempo, é responsável por um vazio que nunca pode ser preenchido. Esse vazio mobiliza nosso desejo (o que faz funcionar os objetos fetiche), mas também desenvolve nossos fantasmas, nossos sintomas, como o olhar ausente nos filmes de Hitchcock, cujo sentido ganha uma expressão fantasmagórica.
Para Lacan, no Seminário 11, “o quadro está certamente no meu olho. Mas eu, eu estou no quadro”.Não seria essa alteridade do sujeito nas coordenadas do campo de visão que mobiliza o desejo. O sujeito (espectador), ao assistir ao BBB12, vê-se no outro (o que mobiliza seu desejo em olhar é o sentido, o sentido que se atribui ao programa que está, antes, no próprio espectador). A suspeita de abuso sexual no BBB12, que mobilizou a mídia de todo o país, não seria o próprio objeto remexendo o espectador?
O olhar de Fernando Pessoa
No senso comum, os reality shows são, muitas vezes, entendidos como programas de voyeurismo. Mas o que deseja o olhar do voyeur? Um olhar que está no limite entre ver e ser descoberto. Quando o voyeur é percebido, passa a ser olhado como um objeto pervertido. Assim não há voyeurismo nos reality shows, mas não há dúvida de que em ambos casos trata-se sempre do desejo de recuperar o objeto perdido, que para Lacan pertence ao registro do real, daquilo que nunca pode ser simbolizado. O telespectador pode até chegar a ter consciência dessa trama e perceber que sempre está assistindo mais do mesmo (como se o neurótico ficasse saturado na sua própria repetição) e, muito provavelmente, ele continuará no seu movimento porque a cena, ou o objeto, são apenas um semblante do que ele realmente busca. É assim que funciona a cadeia de significantes: o sujeito desliza de um significante para outro, de uma imagem para outra, acreditando que encontrará algo que o satisfaça por completo, mas seu gozo está mesmo é nesse incessante movimento.
Os participantes do programa também não estão preocupados com as câmeras captando cada um dos seus movimentos, mas sim, com esse olhar ausente (que neste caso passa a ter um duplo movimento). Nesta situação, somos nós, telespectadores, que nos posicionamos na condição de “objeto a”, objeto de desejo dos participantes.
Talvez quem primeiro tenha descrito esse movimento do olhar tenha sido Fernando Pessoa: “De quem é o olhar/ Que espreita por meus olhos?/ Quando penso que vejo,/ Quem continua vendo/ Enquanto estou pensando?/ Por que caminhos seguem,/ Não os meus tristes passos,/ Mas a realidade/ De eu ter passos comigo?”
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